JOAQUINENSE COM COVID-19 RELATA COMO VEM SUPERANDO DOENÇA

Elisabete Cantarela Cunha desabafa que, além da doença, maior desafio foi lidar com os boatos





As secretarias estaduais de Saúde divulgaram, até as 18h desta quarta-feira (8), 15.927 casos confirmados de coronavírus no Brasil e 800 mortes pela Covid-19.


Em meio ao surto mundial com a pandemia do vírus e situação de emergência em várias cidades da região, São Joaquim da Barra contabiliza hoje (08), 2 casos sob investigação, 5 descartados e um único caso positivo, confirmado pela Prefeitura Municipal no dia 29 de março.



A paciente que recebeu o diagnóstico positivo é a fisioterapêuta Elisabete Cantarela Cunha, primeira com Covid-19 em São Joaquim da Barra.



Procurada pela INSIDE, ela conta como se sentiu, física e psicologicamente ao receber o diagnóstico da doença. Confira:


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INSIDE - Como percebeu os sintomas e onde você acredita que se contaminou?

BETE- Eu estava inscrita em um curso pra ser feito em maio, em São Paulo, de ozonioterapia.

Então começou essa onda do coronavírus e resolvi me antecipar e consegui a última vaga deste mesmo curso em março. Não posso garantir com certeza quando aconteceu a contaminação, mas creio que tenha sido nesse final de semana em São Paulo, em algum momento da volta eu tive contato com alguém que estava com o vírus. Cheguei a São Joaquim da Barra, trabalhei na segunda e na terça-feira, na quarta eu já senti uns sinais de gripe. Corpo ruim, febre baixa, dores nas costas, nos músculos e tosse. Como eu havia ido pra São Paulo, eu me preocupei e já fui diminuindo meus atendimentos, restringi na quinta-feira apenas aos mais jovens e na sexta-feira eu já não trabalhei. Tive então uma acentuação dos sintomas.  Não tive febre alta, nem dor de garganta, complicações, nem nada do tipo, apenas os sintomas que citei e uma pressão no pulmão, uma sensação que o ar não cabia lá dentro. 
Quando fui ao médico, na ausculta pulmonar ele já notou que havia algo errado e me encaminhou para a tomografia no hospital, onde permaneci, pois a tomografia também batia com os resultados de alguém infectado pelo coronavírus.




INSIDE - Como foi receber o diagnóstico positivo?

BETE- Uma sensação mista de “ainda bem que vim ao médico” com “meu Deus, será que eu vou morrer”. Pensei em todas as pessoas que eu havia tido contato, principalmente na minha mãe, pois meu consultório é anexo à casa da minha mãe. Mesmo eu tendo feito todas as medidas protetivas, com máscaras, higiene e distância, passa pela cabeça toda a preocupação. Eu tinha que avisar todos os meus pacientes, eu tinha que ver como eles estavam... Então é realmente uma situação muito estranha, um misto de pavor com alívio, não dá pra explicar.




INSIDE - O que mais deixou você preocupada?

BETE- Logo que dei entrada no hospital, começaram algumas situações que eu não estou habituada a passar, nada relacionado à área hospitalar em si, mas à publicidade. Eu não estou acostumada  com publicidade em cima do meu nome, sou muito discreta em relação à minha vida. E de repente, antes mesmo de eu ter a oportunidade de telefonar para a minha família, o meu filho já estava recebendo mensagens dizendo que eu estava internada, em estado grave, na UTI... situações que não eram reais, mentiras. Usaram inclusive fotos das minhas redes sociais, tudo com uma rapidez incrível. Então a situação tomou uma proporção extravagante e foi realmente muito incômoda essa exposição. 



INSIDE - Quando foi o momento mais difícil até agora?

BETE- Logo no dia seguinte, já tinha uma pessoa na rede social dizendo que eu tive a intenção de soltar o vírus, que eu omiti a contaminação e que eu articulei uma propagação. No texto, ela me chamava de criminosa. Eu tenho o print desse texto. Então, a partir daí, a gente perdeu a paz. Todos os dias inventavam coisas, como se eu estivesse fazendo compras no supermercado ou meu filho jogando bola em alguma praça. Disseram que eu cheguei a um local e tirei a máscara para contaminar as pessoas. Todas invenções que vão totalmente contra à minha conduta, principalmente como uma profissional da saúde. Então, creio que essa tenha sido a situação mais difícil. Mais difícil até que me ver com o coronavírus. Parar pra pensar “Poxa, mas quem está doente, eu ou essas pessoas que inventam essas coisas?” Essas inverdades foram a parte mais difícil de processar.



INSIDE - Como tem sido esse período de isolamento emocionalmente?

BETE- O isolamento é necessário. A partir do momento que eu resolvi procurar o médico e teve a possibilidade do coronavírus e depois a confirmação do diagnóstico, foi então que eu realmente me distanciei de todo mundo. Antes disso, tive inevitavelmente contato com algumas poucas pessoas, porém vejo que não houve a contaminação delas, elas não ficaram doentes, não tiveram sintomas. Eu me tranquilizo nesse sentido. O isolamento é necessário, nós precisamos nos isolar pra proteger as pessoas que estão ao nosso redor, mudar nossa rotina. Rotina essa que nem é tão ruim, tenho mais tempo e estou tentando tirar dela o lado positivo e aceitando as coisas da melhor forma possível.



INSIDE - Como você mora com marido e filhos, como faz a separação das coisas em casa para que eles não se infectem?

BETE- Logo que eu me isolei no meu quarto, coloquei o resto da minha família da sala pra frente, separei todos meus objetos, fiquei com um banheiro separado pra mim, tudo que eu sujava eu mesma lavava. Eu não posso afirmar se eles tiveram contaminação ou não, mas ninguém da minha família teve sintoma algum, mesmo a transmissão sendo tão fácil. Tomei o máximo de cuidado que eu podia.



INSIDE - Como foi o tratamento da doença?

BETE- O tratamento que o médico me propôs foi tomar uma medicação pra ajudar meus pulmões a se limparem, e dipirona, caso necessário, que eu já tomava. Só que eu compartilho da crença de diversas terapias integrativas não convencionais. Então eu passei por atendimentos na microfisioterapia, que é a área em que eu trabalho, onde abordamos questões tóxicas, emocionais, virais, no nosso corpo. Passei também por terapia floral, com todos os óleos que podem melhorar o  sistema imunológico. Ou seja, uma gama de terapias que eu sou encantada e gosto muito. Então está mais fácil eu ter tomado uma homeopatia e usado um óleo essencial, do que ter tomado uma medicação forte. Nem antibióticos, não tomei em momento algum.

INSIDE - Você ainda tem sintomas?

BETE- Não tenho mais sintomas, nenhum, apenas tusso e acuso o coronavírus pra qualquer indisposição (risos). Mas não estou tendo sintomas. Considero que acabou o processo, finalizou. Não realizei exames pra confirmar se eu já encerrei  o processo da doença. Todas pesquisas que vejo, é que o período de incubação que é necessário é de 15 dias, inclusive as pessoas do Governo que foram infectadas, já voltaram às suas ações. Então eu considero que, mesmo não tendo feitos exames laboratoriais, estou curada e não tenho sintomas. Quero que minha vida volte ao normal o mais rápido possível.



INSIDE - Já fez exame para saber se está curada?

BETE- Quando estive no hospital, me comprometi a fazer uma quarentena te o dia 10 de abril, que não sairia, não frequentaria lugares públicos, supermercados, nada. Nessa quarentena, entramos eu e a minha família. Paulo fechou a farmácia e os meninos se recolheram em casa. Nem abrir a porta eu faço. Baseado no que eu vi e ouvi pelas redes sociais, eu estou preparada para por o pé na rua e sofrer algum tipo de hostilidade, não espero muito a solidariedade. Pois as pessoas foram muito cruéis conosco, meus filhos sentiram isso. Corri atrás de poupar a minha mãe das noticias, mas teve muita hostilidade. Então dia 10, já me preparo para o pior, não espero a solidariedade. Tenho a impressão que serei um vírus eterno, que as pessoas olham pra mim e pensam “será que ela ainda está perigosa?”. O vírus tem meia vida, acabou, acabou. Se estiver curada, não vou transmitir.



INSIDE - Se pudesse dar um conselho o que seria?

BETE- Meu conselho é que todos acatem essa quarentena, evitem aglomeração, pra proteger não só você, mas as pessoas ao seu redor. Nós que temos pessoas idosas, doentes crônicos, diabéticos, hipertensos, todos esses estão no grupo de risco. Então se as pessoas se expuserem, se elas carregarem esse vírus pra dentro de casa, as coisas podem ficar muito complicadas. Não é exagero. É prudente, coerente. O mundo está sofrendo com tudo isso, a nossa cidade ainda não, eu comecei a lista de casos, mas até o momento ela parou em mim, espero que continue assim.

E vida que segue, isso vai passar, recuperaremos nossas vidas, tudo vai passar.


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